O que aprendemos com os Laboratórios Vivos do Music360?

O que acontece quando colocamos a música à prova em hospitais, lojas, restaurantes ou plataformas digitais? Os Laboratórios Vivos do Music360, projeto europeu de investigação, revelaram respostas surpreendentes: da influência da música no bem‑estar de trabalhadores ao seu impacto terapêutico em pacientes oncológicos. Dois investigadores partilham resultados que mostram como a música tem um valor muito mais amplo e profundo do que imaginamos.

Os laboratórios vivos levados a cabo no âmbito do projeto europeu Music360 têm vindo a revelar novas perspetivas sobre o valor real da música, económico, social, cultural e terapêutico, através de estudos pioneiros realizados em vários países. Aqui partilhamos duas entrevistas que ilustram bem a diversidade e a relevância deste trabalho.

Na primeira, Jaap Gordijin, coordenador do projeto e professor na VU Amsterdam, explica como surgiu a iniciativa, que desafios procurou responder e o que os diferentes laboratórios vivos (living labs) revelaram sobre o impacto da música em setores de atividade muito distintos.

Na segunda, o professor Conrado Carrascosa López, da Universidade Politécnica de Valência, descreve a experiência conduzida no Hospital de Valência, onde sessões de musicoterapia, utilizando música gravada e ao vivo, demonstraram benefícios claros para pacientes em tratamento oncológico.

Estas duas conversas mostram como a música é um bem poderoso e multifacetado, capaz de gerar valor para criadores, utilizadores e para a sociedade como um todo.

 

Jaap Gordijin – VU Amsterdam, coordenador do projeto Music360

De onde veio a ideia que inspirou o projeto Music360?

A ideia surgiu numa sessão com a SENA (a sociedade de direitos irmã da GDA na Holanda). Percebemos que seria útil compreender melhor o valor da música, incluindo a música ambiente. A lei determina que os titulares de direitos devem receber uma remuneração justa pela utilização das suas obras, e esse valor é muitas vezes definido por decisões judiciais que acabam por estabelecer uma prática comum. No entanto, essa prática não reflete necessariamente o valor real que a música tem, por exemplo, para lojas, restaurantes ou cadeias de retalho.

Jaap Gordijin – VU Amsterdam, Project Coordinator Music360

Quais eram os principais objetivos que pretendiam alcançar?

O primeiro objetivo era compreender melhor o valor da música, tanto de forma quantitativa como qualitativa. Alargámos esta ideia ao reconhecimento de que o valor da música depende do papel de quem com ela interage – seja um ouvinte, um utilizador comercial, um titular de direitos ou um decisor político.

Além disso, queríamos oferecer uma visão mais integrada do valor da música, especialmente para os titulares de direitos.

Isto implica reconhecer, por exemplo, que um intérprete e autor podem ser a mesma pessoa – algo que atualmente não está refletido nos metadados musicais. Também queríamos compreender melhor a relação entre gravação e a obra, o que na prática significa ligar o ISRC (Identificador único do fonograma) ao ISWC (Identificador único da música, ligado à autoria da mesma).

Por fim, pretendíamos fornecer uma visão do valor da música a nível europeu, e não apenas nacional. Hoje, o acesso à informação é frequentemente limitado às entidades de gestão coletiva de cada país, o que constitui uma limitação desnecessária.

 O que trouxeram de novo os laboratórios vivos?

Os laboratórios vivos do projeto revelaram abordagens e resultados muito distintos. No caso dos Países Baixos, foi difícil demonstrar que a música mais rápida ou mais lenta influencia diretamente as vendas em lojas, ou outras superfícies comerciais. No entanto, surgiu uma descoberta inesperada: a música tem um impacto significativo no bem‑estar dos lojistas ou trabalhadores, que se sentem mais motivados e, por consequência, vendem melhor.

Na Irlanda, um estudo quantitativo mostrou que a música tem um impacto relevante no setor da hospitalidade.

Na Finlândia, foram desenvolvidos vários laboratórios vivos, incluindo um que comparou a utilização de música comercial (música facilmente reconhecível) com música não comercial, gerada por IA, concluindo que a música comercial gera melhores resultados.  

Em Portugal, analisou-se em detalhe se a utilização da música em espaços públicos torna mais justa a distribuição e a remuneração aos titulares de direitos. Verificou‑se que, com acesso a dados mais precisos, a distribuição será mais justa, embora implique custos adicionais.

Em Espanha, foram realizados vários estudos, incluindo um que avaliou o efeito da música ao vivo em pacientes submetidos a quimioterapia, mostrando que estes se sentem mais relaxados e menos ansiosos.

Quais são as principais conclusões do projeto?

O projeto demonstrou que é perfeitamente possível apresentar informação integrada sobre o valor e o uso da música a diferentes partes interessadas. A solução desenvolvida mostrou também que os detentores de dados – como as entidades de gestão de direitos – podem manter o controlo sobre quem acede a que informação.

Mostrámos ainda que a música tem um valor significativo – financeiro, social e emocional – e que é possível investigar esse valor de forma sistemática. Para isso, foi desenvolvido suporte tecnológico específico, o Experimentation Toolkit (conjunto de instrumentos que permitem replicar estas experiências noutros contextos).

Como vê o futuro do ecossistema musical?

O grande desafio para a indústria musical é, sem dúvida, a música gerada por IA e como vamos lidar com ela. Para isso, é essencial compreender primeiro o valor da música criada por IA.

A verdade é que ainda não sabemos qual será esse valor, nem como se vai comparar com a música criada por humanos. Se a música gerada por IA tiver pouco valor, o problema será menor. Mas, se tiver um valor elevado, teremos um desafio significativo pela frente.

 

Conrado Carrascosa López, Professor UPV – Universidade Politécnica de Valência, investigador do projeto Music360

Poderia explicar a experiência realizada no Hospital de Valência?Conrado Carrascosa López, Professor da Universidade Politécnica de Valência, investigador do projeto Music360

A experiência no hospital tem sido extremamente reveladora e enriquecedora. Testámos diferentes ferramentas de musicoterapia no laboratório vivo, com o objetivo de melhorar a experiência dos pacientes no hospital de dia, de oncologia. Queríamos compreender melhor o potencial de cada abordagem para as aplicar de forma mais eficaz. Realizámos sessões de relaxamento com música gravada e também pequenos concertos ao vivo na própria sala de quimioterapia.

Que resultados foram obtidos?

Os resultados mostram que ambas as abordagens oferecem benefícios significativos aos pacientes, ajudando a atenuar efeitos secundários normalmente associados ao cancro e à quimioterapia. Os pacientes demonstraram grande satisfação, e cada tipo de intervenção produziu melhorias diferentes, em áreas distintas.

Isto revela a necessidade de aprofundar o conhecimento e continuar a investigação, para que possamos oferecer aos pacientes os benefícios mais adequados às suas necessidades.

Se fosse gestor de um hospital, recomendaria o uso da música para fins terapêuticos?

Sem dúvida. A musicoterapia é uma ferramenta altamente subutilizada no contexto hospitalar, apesar de oferecer grande valor e praticamente nenhum efeito secundário. O hospital beneficiaria amplamente, porque o “calor humano” gerado pela música é partilhado não só pelos pacientes, mas também pelos seus acompanhantes e pelo próprio pessoal hospitalar.

GDA fala no Parlamento Europeu sobre o contributo português para o projeto Music360

A participação da GDA no Parlamento Europeu destacou contributo português para o projeto Music360, num encontro reuniu decisores políticos, investigadores e entidades de gestão coletiva. Foram apresentadas as conclusões do projeto que, durante três anos, estudou o valor da utilização pública da música e o impacto que esta tem em diferentes contextos sociais, económicos e culturais.

A GDA marcou presença no Parlamento Europeu, no passado dia 25 de fevereiro de 2026, através da intervenção de Bruno Gaminha, que representou a entidade de gestão coletiva portuguesa na sessão final do projeto europeu Music360, organizada pela AEPO-ARTIS e acolhida pelo eurodeputado Hélder Sousa Silva.

O encontro reuniu decisores políticos, investigadores e entidades de gestão coletiva para apresentar as conclusões de um projeto que, durante três anos, estudou de forma aprofundada o valor da utilização pública da música e o impacto que esta tem em diferentes contextos sociais, económicos e culturais.

Apresentação dos resultados do Music360

O projeto, financiado pelo programa Horizon Europe, contou com a participação de vários parceiros europeus, entre os quais Universidades, como a de Amesterdão e Valência, empresas tecnológicas como a BMAT e entidades de gestão coletiva de direitos como a GDA, a SENA e a IMRO. A sessão contou ainda com a presença de uma delegação da Comissão Europeia liderada por Patrico Ortiz De La Torre, da European Research Executive Agency.

Laboratórios Vivos nos Países Baixos e em Espanha 

Os estudos-piloto realizados nos Países Baixos analisaram o impacto da música em ambientes de retalho, revelando efeitos positivos no humor e satisfação dos trabalhadores.

Em Espanha, a investigação realizada pelo Professor Conrado Carrascosa López demonstrou benefícios significativos da música no bem-estar de pacientes submetidos a tratamentos de quimioterapia, bem como a sua valorização pelas equipas clínicas.

Demonstração do Music360 Dashboard pela GDA 

Em representação da GDA, Bruno Gaminha apresentou o Music360 Digital Dashboard, uma ferramenta inovadora que demonstra como os dados sobre utilização musical podem ser agregados, analisados e transformados em informação útil para titulares de direitos, entidades de gestão coletiva e decisores políticos. A demonstração evidenciou o potencial da tecnologia para reforçar a transparência e melhorar a formulação de políticas culturais baseadas em evidência.

Recomendações políticas para o futuro

O Diretor Jurídico da AEPO-ARTIS, Nick Yule, apresentou recomendações, incluindo a criação de uma secção dedicada à música no futuro EU Cultural Data Hub e a constituição de um grupo de trabalho permanente que dê continuidade ao trabalho do Music360, integrando também os desafios emergentes da inteligência artificial generativa na utilização pública da música.

Quando temos de recorrer aos tribunais para garantir direitos

Os mecanismos de remuneração legal nem sempre funcionam como previsto. A luta por vezes arrasta-se até aos tribunais, acarretando custos elevados e um enorme desgaste para artistas e para as suas sociedades de gestão coletiva.

A remuneração justa dos artistas não é apenas uma aspiração ética ou política – é uma obrigação legal e um direito reconhecido pela legislação nacional e europeia. No entanto, a realidade com que os artistas se deparam continua a estar marcada por enormes desigualdades e dificuldades na obtenção de uma compensação equitativa pela exploração das suas prestações artísticas fixadas em obras audiovisuais ou fonográficas.

Em muitos casos, esta luta prolonga-se até aos tribunais, o que demonstra tanto a urgência de medidas mais eficazes como a resiliência dos intérpretes e das entidades de gestão coletiva que os representam.

Na prática, os mecanismos de remuneração legal nem sempre funcionam como previsto. Isso pode dever-se a lacunas legislativas, falta de vontade dos utilizadores ou resistência dos intermediários, levando os artistas e as suas entidades de gestão coletiva a recorrerem aos tribunais.

Esse recurso é um direito garantido, mas acarreta custos elevados, prazos longos e um desgaste emocional considerável. Ainda assim, tem sido muitas vezes o único meio de garantir aquilo que deveria ser óbvio: que os artistas sejam pagos pelo uso das suas interpretações ou execuções.

A GDA – Gestão dos Direitos dos Artistas tem estado na linha da frente desta luta, acionando mecanismos legais sempre que necessário para garantir que os direitos dos artistas não sejam apenas reconhecidos, mas efetivamente respeitados. Este esforço não é isolado nem exclusivo de Portugal. É um desafio comum a nível europeu, como ficou claro na mais recente conferência da AEPO-ARTIS (Association of European Performers Organisations, que reúne 37 organizações de gestão coletiva de artistas, incluindo a GDA), realizada no passado dia 27 de maio, em Bruxelas.

AEPO-ARTIS: apelo europeu por remuneração justa

Este ano dedicada ao tema “Performers’ FAIR Remuneration as an EU Objective”, a conferência anual da AEPO-ARTIS reuniu mais de 100 participantes, entre representantes de instituições europeias, governos nacionais, organizações culturais e membros da própria AEPO-ARTIS.

Durante o evento, foram destacados temas centrais como a urgência de garantir uma remuneração justa aos artistas, a importância da ratificação do Tratado de Pequim pela União Europeia – essencial para reforçar os direitos dos intérpretes a nível internacional – e os novos desafios colocados pela inteligência artificial, nomeadamente quanto à utilização das prestações artísticas em processos de treino de conteúdos por IA.

A conferência também abordou de forma crítica a Diretiva Europeia sobre Direitos de Autor no Mercado Único Digital (CDSM), cuja implementação, segundo diversos intervenientes, tem ficado aquém das expectativas no que diz respeito à melhoria das condições dos artistas.

Ficou clara a mensagem de que é preciso reforçar os direitos dos artistas, intérpretes e executantes, tanto através de legislação eficaz como de uma aplicação prática mais justa e abrangente. A remuneração justa não pode continuar a ser uma exceção – deve ser a norma sempre que haja utilização das prestações dos artistas.

Sistemas jurídicos robustos precisam-se

A conferência da AEPO-ARTIS reforça aquilo que a GDA defende há muito: que a remuneração justa não pode depender da sorte, da boa vontade das plataformas ou da capacidade de um artista suportar longos processos judiciais. Precisa de ser garantida por sistemas jurídicos robustos, aplicados de forma uniforme e eficaz.

A justiça para os artistas não deve depender da sua capacidade de litigar. Deve estar garantida à partida, por sistemas eficazes e respeitados.

A GDA continuará a atuar, em Portugal e na Europa, para que cada artista seja remunerado com justiça e reconhecimento. Porque um sector cultural forte começa com a valorização de quem o faz acontecer.