O que aprendemos com os Laboratórios Vivos do Music360?

O que acontece quando colocamos a música à prova em hospitais, lojas, restaurantes ou plataformas digitais? Os Laboratórios Vivos do Music360, projeto europeu de investigação, revelaram respostas surpreendentes: da influência da música no bem‑estar de trabalhadores ao seu impacto terapêutico em pacientes oncológicos. Dois investigadores partilham resultados que mostram como a música tem um valor muito mais amplo e profundo do que imaginamos.

Os laboratórios vivos levados a cabo no âmbito do projeto europeu Music360 têm vindo a revelar novas perspetivas sobre o valor real da música, económico, social, cultural e terapêutico, através de estudos pioneiros realizados em vários países. Aqui partilhamos duas entrevistas que ilustram bem a diversidade e a relevância deste trabalho.

Na primeira, Jaap Gordijin, coordenador do projeto e professor na VU Amsterdam, explica como surgiu a iniciativa, que desafios procurou responder e o que os diferentes laboratórios vivos (living labs) revelaram sobre o impacto da música em setores de atividade muito distintos.

Na segunda, o professor Conrado Carrascosa López, da Universidade Politécnica de Valência, descreve a experiência conduzida no Hospital de Valência, onde sessões de musicoterapia, utilizando música gravada e ao vivo, demonstraram benefícios claros para pacientes em tratamento oncológico.

Estas duas conversas mostram como a música é um bem poderoso e multifacetado, capaz de gerar valor para criadores, utilizadores e para a sociedade como um todo.

 

Jaap Gordijin – VU Amsterdam, coordenador do projeto Music360

De onde veio a ideia que inspirou o projeto Music360?

A ideia surgiu numa sessão com a SENA (a sociedade de direitos irmã da GDA na Holanda). Percebemos que seria útil compreender melhor o valor da música, incluindo a música ambiente. A lei determina que os titulares de direitos devem receber uma remuneração justa pela utilização das suas obras, e esse valor é muitas vezes definido por decisões judiciais que acabam por estabelecer uma prática comum. No entanto, essa prática não reflete necessariamente o valor real que a música tem, por exemplo, para lojas, restaurantes ou cadeias de retalho.

Jaap Gordijin – VU Amsterdam, Project Coordinator Music360

Quais eram os principais objetivos que pretendiam alcançar?

O primeiro objetivo era compreender melhor o valor da música, tanto de forma quantitativa como qualitativa. Alargámos esta ideia ao reconhecimento de que o valor da música depende do papel de quem com ela interage – seja um ouvinte, um utilizador comercial, um titular de direitos ou um decisor político.

Além disso, queríamos oferecer uma visão mais integrada do valor da música, especialmente para os titulares de direitos.

Isto implica reconhecer, por exemplo, que um intérprete e autor podem ser a mesma pessoa – algo que atualmente não está refletido nos metadados musicais. Também queríamos compreender melhor a relação entre gravação e a obra, o que na prática significa ligar o ISRC (Identificador único do fonograma) ao ISWC (Identificador único da música, ligado à autoria da mesma).

Por fim, pretendíamos fornecer uma visão do valor da música a nível europeu, e não apenas nacional. Hoje, o acesso à informação é frequentemente limitado às entidades de gestão coletiva de cada país, o que constitui uma limitação desnecessária.

 O que trouxeram de novo os laboratórios vivos?

Os laboratórios vivos do projeto revelaram abordagens e resultados muito distintos. No caso dos Países Baixos, foi difícil demonstrar que a música mais rápida ou mais lenta influencia diretamente as vendas em lojas, ou outras superfícies comerciais. No entanto, surgiu uma descoberta inesperada: a música tem um impacto significativo no bem‑estar dos lojistas ou trabalhadores, que se sentem mais motivados e, por consequência, vendem melhor.

Na Irlanda, um estudo quantitativo mostrou que a música tem um impacto relevante no setor da hospitalidade.

Na Finlândia, foram desenvolvidos vários laboratórios vivos, incluindo um que comparou a utilização de música comercial (música facilmente reconhecível) com música não comercial, gerada por IA, concluindo que a música comercial gera melhores resultados.  

Em Portugal, analisou-se em detalhe se a utilização da música em espaços públicos torna mais justa a distribuição e a remuneração aos titulares de direitos. Verificou‑se que, com acesso a dados mais precisos, a distribuição será mais justa, embora implique custos adicionais.

Em Espanha, foram realizados vários estudos, incluindo um que avaliou o efeito da música ao vivo em pacientes submetidos a quimioterapia, mostrando que estes se sentem mais relaxados e menos ansiosos.

Quais são as principais conclusões do projeto?

O projeto demonstrou que é perfeitamente possível apresentar informação integrada sobre o valor e o uso da música a diferentes partes interessadas. A solução desenvolvida mostrou também que os detentores de dados – como as entidades de gestão de direitos – podem manter o controlo sobre quem acede a que informação.

Mostrámos ainda que a música tem um valor significativo – financeiro, social e emocional – e que é possível investigar esse valor de forma sistemática. Para isso, foi desenvolvido suporte tecnológico específico, o Experimentation Toolkit (conjunto de instrumentos que permitem replicar estas experiências noutros contextos).

Como vê o futuro do ecossistema musical?

O grande desafio para a indústria musical é, sem dúvida, a música gerada por IA e como vamos lidar com ela. Para isso, é essencial compreender primeiro o valor da música criada por IA.

A verdade é que ainda não sabemos qual será esse valor, nem como se vai comparar com a música criada por humanos. Se a música gerada por IA tiver pouco valor, o problema será menor. Mas, se tiver um valor elevado, teremos um desafio significativo pela frente.

 

Conrado Carrascosa López, Professor UPV – Universidade Politécnica de Valência, investigador do projeto Music360

Poderia explicar a experiência realizada no Hospital de Valência?Conrado Carrascosa López, Professor da Universidade Politécnica de Valência, investigador do projeto Music360

A experiência no hospital tem sido extremamente reveladora e enriquecedora. Testámos diferentes ferramentas de musicoterapia no laboratório vivo, com o objetivo de melhorar a experiência dos pacientes no hospital de dia, de oncologia. Queríamos compreender melhor o potencial de cada abordagem para as aplicar de forma mais eficaz. Realizámos sessões de relaxamento com música gravada e também pequenos concertos ao vivo na própria sala de quimioterapia.

Que resultados foram obtidos?

Os resultados mostram que ambas as abordagens oferecem benefícios significativos aos pacientes, ajudando a atenuar efeitos secundários normalmente associados ao cancro e à quimioterapia. Os pacientes demonstraram grande satisfação, e cada tipo de intervenção produziu melhorias diferentes, em áreas distintas.

Isto revela a necessidade de aprofundar o conhecimento e continuar a investigação, para que possamos oferecer aos pacientes os benefícios mais adequados às suas necessidades.

Se fosse gestor de um hospital, recomendaria o uso da música para fins terapêuticos?

Sem dúvida. A musicoterapia é uma ferramenta altamente subutilizada no contexto hospitalar, apesar de oferecer grande valor e praticamente nenhum efeito secundário. O hospital beneficiaria amplamente, porque o “calor humano” gerado pela música é partilhado não só pelos pacientes, mas também pelos seus acompanhantes e pelo próprio pessoal hospitalar.

MUSIC360: a música enquanto ativo estratégico

Financiado pela União Europeia e agrupando onze organizações europeias, o Music360 está a transformar a forma como a música ambiente é medida, valorizada e remunerada. A GDA assumiu um papel ativo neste projeto, que pretende trazer mais justiça e transparência aos artistas.

A música que ouvimos num café, numa loja, num restaurante ou numa discoteca é muito mais do que atmosfera: influencia a experiência, molda comportamentos e cria valor económico real. Mas como medir esse impacto? E, sobretudo, como garantir que os artistas são compensados de forma justa pela utilização das suas obras? Foi para responder a estas perguntas que nasceu o Music360, um projeto europeu que junta especialistas, universidades, empresas tecnológicas e entidades de gestão coletiva, entre elas, a GDA.

Em Portugal, a iniciativa ganhou forma através de uma série de Laboratórios Vivos (Living Labs) que monitorizaram, em contexto real, a utilização de música em espaços públicos por todo o país.

Com recurso a tecnologia de audio fingerprinting para monitorizar a utilização musical, o MUSIC360 conseguiu comparar padrões de consumo entre diferentes setores de atividade económica e cruzar essa informação com bases de dados internacionais. Este processo permitiu identificar, com elevada precisão, os titulares dos direitos associados a cada utilização e estudar a incorporação dessa informação num modelo de distribuição mais justo, transparente e alinhado com a utilização real da música.

Os resultados práticos deste projeto começarão já a fazer-se sentir este ano, com a implementação progressiva de melhorias no modelo de distribuição da GDA.

Em diversos países decorreram, desde 2023, vários laboratórios vivos (experiências em situação real de utilização de música), para tentar perceber o valor gerado pela sua utilização em espaços públicos, em diferentes contextos. E quando se fala de valor neste contexto, não é apenas o valor económico é também, o valor social, cultural, terapêutico e até emocional.

UM DESAFIO ENORME

Na vertente portuguesa do projeto, a GDA quis perceber como a música é efetivamente utilizada em espaços públicos em Portugal (bares, discotecas, lojas, restaurantes, etc.) e o que essa utilização representa para os artistas, nomeadamente como os seus direitos são remunerados. Outro aspeto foi a comparação de padrões entre a utilização de música em espaços públicos e em radiodifusão (televisão e rádio).

“Estamos a falar de milhares de espaços públicos espalhados pelo país, com diferentes tipologias, que têm a utilização de música em comum”, sublinha Bruno Gaminha, diretor do Departamento de Distribuição e Sistemas de Informação da GDA, lembrando que passar música numa discoteca, um café, um restaurante, uma loja, corresponde a padrões de utilização muito distintos.

Analisaram‑se igualmente as implicações que estas diferenças, e até as eventuais semelhanças, têm na forma como a GDA concebe e estrutura a arquitetura de distribuição dos direitos dos artistas. Todo o trabalho desenvolvido pela GDA no âmbito deste projeto partiu precisamente dessa premissa.

Há três anos, quando a GDA abraçou o projeto, pretendeu‑se avaliar a possibilidade de definir uma boa prática, aplicável também a nível internacional, sobre a forma de articular toda essa informação com os dados relativos à utilização em rádio e televisão. O objetivo era considerar todos os constrangimentos envolvidos no processo de distribuição, de modo a construir um modelo que fosse o mais justo possível.

“Quisemos perceber, dos pontos de vista metodológico e tecnológico e dos dados que teríamos de medir e de obter, como é que construiríamos um modelo híbrido que nos permitisse aproximar a distribuição de um modelo ideal”, destaca Bruno Gaminha

INFORMAÇÃO CONECTADA

Um dos momentos do projeto passou pela instalação de dispositivos de monitorização de música por todo o país, em diversos espaços e com diferentes tipologias de utilização de música. Assim, estudou-se em cada um desses espaços, o que é que era igual, o que é que era diferente. Por outro lado, fez-se também um exercício semelhante aplicando o mesmo tipo de métricas e de lógicas àquilo que foi a música utilizada em rádio e em televisão e depois, naturalmente, comparou-se uma com a outra.

“Quisemos também fazer uma prova de conceito. Para tal, conectámos essa informação com o sistema de bases de dados internacionais de repertório e artistas, nomeadamente o VRDB (base de dados internacional que conecta os metadados dos fonogramas com os dados dos artistas que interpretam ou executam cada um dos fonogramas) e o IPD (base de dados que documenta e identifica internacionalmente artistas). Isso permitiu identificar claramente quem seriam os titulares de direitos e as implicações para o processo de distribuição. Essa informação também foi comparada e ligada à informação disponível no sistema de distribuição da GDA”, explica Bruno Gaminha.

Bruno Gaminha. diretor de Distribuição e Sistemas de Informação da GDA. Representou a entidade de gestão de direitos portuguesa no projeto Music360

A seguir, tratou-se de perceber como é que o modelo de distribuição deverá evoluir para que, incorporando esses ensinamentos e esse tipo de dados, possa reforçar a justiça na distribuição.

“O que conseguimos fazer neste projeto foi associar a música que tocou e o local em que tocou à informação sobre quem tem direitos sobre essas obras. E fizemo-lo de uma maneira que nos permite integrar tudo isso de forma regular e consistente no nosso processo de distribuição”, salienta o Bruno Gaminha.

A aprendizagem que resultou desta experiência e os dados dela recolhidos serão incorporados, já a partir deste ano, no atual modelo de distribuição da GDA. A distribuição que será comunicada aos artistas no próximo verão já vai refletir essas melhorias.

O impacto positivo deste projeto não será sentido apenas pela GDA, mas também por outras sociedades de artistas, produtores e autores na Europa.

TRANSPARÊNCIA

Entretanto, na sequência deste projeto, a GDA envolveu-se na construção da plataforma digital do Music360 que permite agregar informação sobre a utilização da música e sobre as distribuições nos diferentes países europeus que fazem parte do projeto.

Esse trabalho reforça a ideia de que os dados são um ativo estratégico dos seus detentores. Com isso em mente, mas também com a necessidade de partilha e transparência, foi possível desenvolver uma arquitetura descentralizada em que a propriedade dos dados e até o seu armazenamento físico fica sempre do lado dos seus detentores, por exemplo, as entidades de gestão coletiva que gerem esses dados em nome dos titulares de direitos.

Ao mesmo tempo, a plataforma permite que os dados sejam agregados num determinado minuto, num determinado momento e num determinado contexto, permitindo responder a algo em concreto, sem que, depois, fiquem armazenados de forma centralizada.

“Esta experiência é bastante interessante, porque permite aumentar de forma significativa a transparência. Ao mesmo tempo, as entidades detentoras podem manter na íntegra a titularidade dos seus dados, podendo a qualquer altura revogar as permissões de leitura, tendo a certeza de que os seus dados não foram replicados”, salienta Bruno Gaminha.

A plataforma Music360 permite obter informação com um elevado grau de detalhe. Assim, é possível saber não apenas que a música de determinado artista gerou direitos na Holanda ou na Finlândia, mas que foi utilizada na Televisão A, na Rádio B ou no supermercado C.

A plataforma permite detalhar a informação dos sistemas atuais e saber, por exemplo, que não só que houve uma utilização daquela música, na Holanda, mas também em que cidade e mesmo em que bairro dessa cidade. Essa informação pode ser estratégica para os artistas, já que facilita a tomada de decisões de carreira, por exemplo no que diz respeito à escolha dos locais para atuações ao vivo.

A MÚSICA É UM ATIVO ESTRATÉGICO

Nestes três anos de investigação e experimentação percebeu-se que existiu algo transversal a todos os laboratórios vivos. Por um lado, a música tem um impacto muito significativo na forma como funcionários de espaços comerciais se relacionam com o seu local de trabalho e também na forma como os clientes adquirem serviços ou produtos.

“Um restaurante, por exemplo, não vende só a comida, não vende só o serviço. Vende também a música que está a utilizar naquele contexto. Constatámos que, se os espaços comerciais olharem para a música como um ativo estratégico, como fazendo parte daquilo que vendem, o impacto pode ser muito importante”, detalha Bruno Gaminha

Em termos económicos, a música tem, efetivamente, um impacto no valor, criado nesses espaços.

“Tal como a localização, o espaço e o serviço, a música deve ser pensada estrategicamente. Isso é importante para os próprios espaços, mas também para os criadores e titulares de direitos. Se a curadoria da música for pensada todos beneficiam. Beneficia o negócio porque consegue ter mais retorno, mas também os titulares de direitos, porque recebem mais direitos e veem que a sua música é devidamente enquadrada ”, conclui Bruno Gaminha.

GDA fala no Parlamento Europeu sobre o contributo português para o projeto Music360

A participação da GDA no Parlamento Europeu destacou contributo português para o projeto Music360, num encontro reuniu decisores políticos, investigadores e entidades de gestão coletiva. Foram apresentadas as conclusões do projeto que, durante três anos, estudou o valor da utilização pública da música e o impacto que esta tem em diferentes contextos sociais, económicos e culturais.

A GDA marcou presença no Parlamento Europeu, no passado dia 25 de fevereiro de 2026, através da intervenção de Bruno Gaminha, que representou a entidade de gestão coletiva portuguesa na sessão final do projeto europeu Music360, organizada pela AEPO-ARTIS e acolhida pelo eurodeputado Hélder Sousa Silva.

O encontro reuniu decisores políticos, investigadores e entidades de gestão coletiva para apresentar as conclusões de um projeto que, durante três anos, estudou de forma aprofundada o valor da utilização pública da música e o impacto que esta tem em diferentes contextos sociais, económicos e culturais.

Apresentação dos resultados do Music360

O projeto, financiado pelo programa Horizon Europe, contou com a participação de vários parceiros europeus, entre os quais Universidades, como a de Amesterdão e Valência, empresas tecnológicas como a BMAT e entidades de gestão coletiva de direitos como a GDA, a SENA e a IMRO. A sessão contou ainda com a presença de uma delegação da Comissão Europeia liderada por Patrico Ortiz De La Torre, da European Research Executive Agency.

Laboratórios Vivos nos Países Baixos e em Espanha 

Os estudos-piloto realizados nos Países Baixos analisaram o impacto da música em ambientes de retalho, revelando efeitos positivos no humor e satisfação dos trabalhadores.

Em Espanha, a investigação realizada pelo Professor Conrado Carrascosa López demonstrou benefícios significativos da música no bem-estar de pacientes submetidos a tratamentos de quimioterapia, bem como a sua valorização pelas equipas clínicas.

Demonstração do Music360 Dashboard pela GDA 

Em representação da GDA, Bruno Gaminha apresentou o Music360 Digital Dashboard, uma ferramenta inovadora que demonstra como os dados sobre utilização musical podem ser agregados, analisados e transformados em informação útil para titulares de direitos, entidades de gestão coletiva e decisores políticos. A demonstração evidenciou o potencial da tecnologia para reforçar a transparência e melhorar a formulação de políticas culturais baseadas em evidência.

Recomendações políticas para o futuro

O Diretor Jurídico da AEPO-ARTIS, Nick Yule, apresentou recomendações, incluindo a criação de uma secção dedicada à música no futuro EU Cultural Data Hub e a constituição de um grupo de trabalho permanente que dê continuidade ao trabalho do Music360, integrando também os desafios emergentes da inteligência artificial generativa na utilização pública da música.

À conversa com Cifrão: a realidade dos bailarinos em Portugal

Reconhecido como uma das figuras mais influentes da dança em Portugal, Cifrão fala sobre o caminho que o trouxe até aqui, os desafios de manter uma carreira artística sólida e a missão de inspirar novas gerações a descobrir a sua própria voz através do movimento.

Muitas pessoas conheceram-te primeiro através da televisão e da música, com o fenómeno dos D’ZRT, e só mais tarde acompanharam o teu trabalho na dança e na coreografia. Como se construiu este percurso com linguagens artísticas muito diferentes?

Na verdade, este percurso construiu-se ao contrário.

Comecei na dança aos 16 anos, muito tarde para quem quer ser bailarino profissional, mas com muito esforço e dedicação, acho que consegui atingir um nível porreiro.

Primeiro comecei a dançar, depois descobri a música e frequentei o conservatório Dom Dinis. Não o acabei, para entrar nos Morangos com Açúcar, mas foi dentro dessa formação que descobri a representação.

Entretanto, comecei a dedicar-me a aulas e a cursos de dança, para poder evoluir e ter mais capacidades, porque para dançar obviamente tens de trabalhar o corpo, mas também tens de trabalhar a voz e a forma como sentes as coisas.

A música e a representação trouxeram-me um bocadinho isso, ajudaram-me a crescer como bailarino, e depois ‘cair’ na série dos Morangos com Açúcar, acabou por ser um passo mais ou menos natural.

Antes disso, estive em Londres durante nove meses a trabalhar e a ter formação e, quando voltei, soube do casting, entrei, e foi aí que realmente que as pessoas começaram a acompanhar o meu trabalho na televisão e depois com D’ZRT, na música.

Mas a verdade é que o meu percurso começou ao contrário. Comecei pela dança, depois fui para a música e depois para a representação. Nos Morangos eu consegui abraçar tudo e, já no decorrer das gravações, o realizador (diretor do projeto) percebeu que eu sabia coreografar e deixam-me coreografar as minhas cenas.

A partir desse momento, eu comecei a coreografar os Morangos todos até à última temporada. Creio que só nos Morangos 5 é que uma colega minha ficou a coreografar. Eu tive de sair por causa de um exame e voltei outra vez na 6ª temporada. A série teve nove temporadas no antigo formato e agora tem muitas mais, que eu também continuo a coreografar.

Em que momento percebeste que a dança passaria a ocupar o centro do teu percurso artístico?

Aqui há um detalhe muito específico, é que eu cresci na dança. A dança é a minha arte principal. É onde eu acho que me destaco um bocadinho mais em função das outras áreas e é onde eu acho que posso fazer a diferença para o futuro.

É a área que eu mais me esforço para realmente apoiar, porque não é tão privilegiada em termos de direitos quanto as outras, não está tão regrada e embora as coisas estejam a evoluir bastante, mas eu acho que é onde eu posso fazer a diferença e por isso dedico-me muito mais.

Entretanto, voltaste à dança, ou seja, fechou-se o círculo. Não é?

Na verdade, eu costumo dizer que eu tenho a sorte de navegar em 3 mundos que eu gosto muito. Pode haver um ano que estou muito apaixonado pela dança, outro pela música e no seguinte é a representação que mexe mais comigo. Vou navegando nesses três universos conforme vou sentindo o que é certo para mim.

A carreira do de um bailarino é particularmente exigente, fisicamente intensa e muitas vezes curta. Do teu ponto de vista, quais são as maiores dificuldades enfrentadas pelos profissionais da dança em Portugal?

A minha opinião é que, se existem estatutos de profissões de desgaste rápido, a de bailarino deveria ser uma delas, e foi reprovada há algum tempo. Para os bailarinos de companhia é possível, mas para outro tipo de bailarinos essa meta ainda não foi atingida.

Outra grande dificuldade é a remuneração dos bailarinos. Ou seja, não houve uma valorização da profissão no mercado de trabalho.

Para mim, esse é um dos maiores problemas por diversos motivos, não só porque o mercado cresceu, mas também porque diversificou-se de tal maneira que abriu espaço para muito mais bailarinos trabalharem. Mas as remunerações não acompanharam este crescimento. Um bailarino que trabalha relativamente bem no mercado comercial dificilmente paga uma casa em Lisboa.

Ou seja, o mesmo valor agora está a ser dividido por muito mais profissionais…

Há uma boa possibilidade desse trabalho começar a ser valorizado se houver mais regras e se a classe se começar a juntar para as definir.  

Os bailarinos estão a conseguir prolongar a longevidade das suas carreiras, não só em termos físicos, mas também porque vão-se capacitando, tornam-se coreógrafos, professores ou diretores artísticos. A evolução está a ser acompanhada pelos bailarinos profissionais e hoje dança-se até muito mais tarde.

Resumindo, se houver respeito pela profissão em termos estatutários e ao nível da compensação financeira, a vida dos bailarinos pode tornar-se muito melhor.

Agora que integras a direção da GDA como representante dos bailarinos, que preocupações e prioridades gostarias de trazer para a discussão?

Devemos abrir um diálogo com os bailarinos para mostrar-lhes quais são as mais-valias de pertencerem a uma instituição como GDA, como o facto de poderem recorrer a apoios ou declarar as suas prestações artísticas. A maior parte dos bailarinos ainda não sabe bem o que pode declarar.

Levar mais a GDA para o meio dos bailarinos pode ser muito importante, porque existem realmente muitos apoios, existem realmente muitas formas de ajudar os bailarinos a transportarem as suas carreiras do ponto A ao ponto B, um ponto melhor, mais sério, mais internacional. Obviamente que esta ligação também poderá ajudar a que os bailarinos tragam o seu repertório para a GDA, entidade que gere os seus direitos conexos.   

Há muita informação que ainda não lhes chegou. A maior parte dos bailarinos ainda não sabe bem onde procurar informação sobre a declaração das suas prestações artísticas. Depois, há várias áreas de dança, há o clássico, há o contemporâneo, há o comercial, há as danças de rua e nem todas estas áreas estão ligadas entre si, ou se movimentam nas mesmas plataformas.

As redes sociais e o streaming trouxeram ainda mais confusão para esta discussão e acredito que possa ser uma mais-valia ao ajudar a esclarecer as diferentes áreas da dança.

Que mudanças gostarias de ver acontecer nos próximos anos, ao nível da organização da classe e da defesa coletiva da profissão, para que os bailarinos tenham melhores condições de trabalho, reconhecimento e proteção dos seus direitos?

Bem, eu acho que existe uma mudança que pode ser feita pelos próprios bailarinos, que ia ser um game change.

Se todos nós nos inscrevêssemos, por exemplo, num sindicato dos artistas de espetáculo, ou num local onde possamos ser defendidos, não por nós próprios, mas por uma instituição, acho que isso ia mudar tudo.

Nós temos vários exemplos fora do nosso país em que isso aconteceu e a valorização da carreira dos bailarinos aumentou. As condições de trabalho melhoraram, por exemplo, a definição do que é um ensaio e do que é um trabalho tornou-se visível e valorizada.

Acredito que, se houvesse essa mudança, todos os bailarinos – que são muitos, muitos, e agora cada vez mais com tantas áreas diferentes – esta união ia fazer uma força gigante.

Nesse caso, a classe teria muito mais força para defender melhores condições e valores de trabalho, em vez de cada bailarino ter de negociar sozinho com quem contrata.

Isso ainda não acontece atualmente. Há muito poucas inscrições no sindicato de artistas de espetáculo, talvez por não se identificarem com essa estrutura. Ainda assim, é um exemplo de como os profissionais da dança se podem organizar para defender melhor a profissão.

No entanto, se os bailarinos não acreditam que aquela é a plataforma ideal, na minha opinião deveriam criar outra. Se isso acontecesse, não haveria nenhum empregador que criasse os seus próprios valores e passavam a ser regrados por uma única instituição. Podia ser agarrada ao Estado, ou mesmo privada, desde que agregasse toda a classe dos bailarinos e ajudasse a definir o mercado de trabalho.

Esta é a grande mudança que, a meu ver, deveria acontecer e, sinceramente, acho que já deveria ter sido pensada há muito tempo.