A música que ouvimos num café, numa loja, num restaurante ou numa discoteca é muito mais do que atmosfera: influencia a experiência, molda comportamentos e cria valor económico real. Mas como medir esse impacto? E, sobretudo, como garantir que os artistas são compensados de forma justa pela utilização das suas obras? Foi para responder a estas perguntas que nasceu o Music360, um projeto europeu que junta especialistas, universidades, empresas tecnológicas e entidades de gestão coletiva, entre elas, a GDA.
Em Portugal, a iniciativa ganhou forma através de uma série de Laboratórios Vivos (Living Labs) que monitorizaram, em contexto real, a utilização de música em espaços públicos por todo o país.
Com recurso a tecnologia de audio fingerprinting para monitorizar a utilização musical, o MUSIC360 conseguiu comparar padrões de consumo entre diferentes setores de atividade económica e cruzar essa informação com bases de dados internacionais. Este processo permitiu identificar, com elevada precisão, os titulares dos direitos associados a cada utilização e estudar a incorporação dessa informação num modelo de distribuição mais justo, transparente e alinhado com a utilização real da música.
Os resultados práticos deste projeto começarão já a fazer-se sentir este ano, com a implementação progressiva de melhorias no modelo de distribuição da GDA.
Em diversos países decorreram, desde 2023, vários laboratórios vivos (experiências em situação real de utilização de música), para tentar perceber o valor gerado pela sua utilização em espaços públicos, em diferentes contextos. E quando se fala de valor neste contexto, não é apenas o valor económico é também, o valor social, cultural, terapêutico e até emocional.
UM DESAFIO ENORME
Na vertente portuguesa do projeto, a GDA quis perceber como a música é efetivamente utilizada em espaços públicos em Portugal (bares, discotecas, lojas, restaurantes, etc.) e o que essa utilização representa para os artistas, nomeadamente como os seus direitos são remunerados. Outro aspeto foi a comparação de padrões entre a utilização de música em espaços públicos e em radiodifusão (televisão e rádio).
“Estamos a falar de milhares de espaços públicos espalhados pelo país, com diferentes tipologias, que têm a utilização de música em comum”, sublinha Bruno Gaminha, diretor do Departamento de Distribuição e Sistemas de Informação da GDA, lembrando que passar música numa discoteca, um café, um restaurante, uma loja, corresponde a padrões de utilização muito distintos.
Analisaram‑se igualmente as implicações que estas diferenças, e até as eventuais semelhanças, têm na forma como a GDA concebe e estrutura a arquitetura de distribuição dos direitos dos artistas. Todo o trabalho desenvolvido pela GDA no âmbito deste projeto partiu precisamente dessa premissa.
Há três anos, quando a GDA abraçou o projeto, pretendeu‑se avaliar a possibilidade de definir uma boa prática, aplicável também a nível internacional, sobre a forma de articular toda essa informação com os dados relativos à utilização em rádio e televisão. O objetivo era considerar todos os constrangimentos envolvidos no processo de distribuição, de modo a construir um modelo que fosse o mais justo possível.
“Quisemos perceber, dos pontos de vista metodológico e tecnológico e dos dados que teríamos de medir e de obter, como é que construiríamos um modelo híbrido que nos permitisse aproximar a distribuição de um modelo ideal”, destaca Bruno Gaminha
INFORMAÇÃO CONECTADA
Um dos momentos do projeto passou pela instalação de dispositivos de monitorização de música por todo o país, em diversos espaços e com diferentes tipologias de utilização de música. Assim, estudou-se em cada um desses espaços, o que é que era igual, o que é que era diferente. Por outro lado, fez-se também um exercício semelhante aplicando o mesmo tipo de métricas e de lógicas àquilo que foi a música utilizada em rádio e em televisão e depois, naturalmente, comparou-se uma com a outra.
“Quisemos também fazer uma prova de conceito. Para tal, conectámos essa informação com o sistema de bases de dados internacionais de repertório e artistas, nomeadamente o VRDB (base de dados internacional que conecta os metadados dos fonogramas com os dados dos artistas que interpretam ou executam cada um dos fonogramas) e o IPD (base de dados que documenta e identifica internacionalmente artistas). Isso permitiu identificar claramente quem seriam os titulares de direitos e as implicações para o processo de distribuição. Essa informação também foi comparada e ligada à informação disponível no sistema de distribuição da GDA”, explica Bruno Gaminha.

A seguir, tratou-se de perceber como é que o modelo de distribuição deverá evoluir para que, incorporando esses ensinamentos e esse tipo de dados, possa reforçar a justiça na distribuição.
“O que conseguimos fazer neste projeto foi associar a música que tocou e o local em que tocou à informação sobre quem tem direitos sobre essas obras. E fizemo-lo de uma maneira que nos permite integrar tudo isso de forma regular e consistente no nosso processo de distribuição”, salienta o Bruno Gaminha.
A aprendizagem que resultou desta experiência e os dados dela recolhidos serão incorporados, já a partir deste ano, no atual modelo de distribuição da GDA. A distribuição que será comunicada aos artistas no próximo verão já vai refletir essas melhorias.
O impacto positivo deste projeto não será sentido apenas pela GDA, mas também por outras sociedades de artistas, produtores e autores na Europa.
TRANSPARÊNCIA
Entretanto, na sequência deste projeto, a GDA envolveu-se na construção da plataforma digital do Music360 que permite agregar informação sobre a utilização da música e sobre as distribuições nos diferentes países europeus que fazem parte do projeto.
Esse trabalho reforça a ideia de que os dados são um ativo estratégico dos seus detentores. Com isso em mente, mas também com a necessidade de partilha e transparência, foi possível desenvolver uma arquitetura descentralizada em que a propriedade dos dados e até o seu armazenamento físico fica sempre do lado dos seus detentores, por exemplo, as entidades de gestão coletiva que gerem esses dados em nome dos titulares de direitos.
Ao mesmo tempo, a plataforma permite que os dados sejam agregados num determinado minuto, num determinado momento e num determinado contexto, permitindo responder a algo em concreto, sem que, depois, fiquem armazenados de forma centralizada.
“Esta experiência é bastante interessante, porque permite aumentar de forma significativa a transparência. Ao mesmo tempo, as entidades detentoras podem manter na íntegra a titularidade dos seus dados, podendo a qualquer altura revogar as permissões de leitura, tendo a certeza de que os seus dados não foram replicados”, salienta Bruno Gaminha.
A plataforma Music360 permite obter informação com um elevado grau de detalhe. Assim, é possível saber não apenas que a música de determinado artista gerou direitos na Holanda ou na Finlândia, mas que foi utilizada na Televisão A, na Rádio B ou no supermercado C.
A plataforma permite detalhar a informação dos sistemas atuais e saber, por exemplo, que não só que houve uma utilização daquela música, na Holanda, mas também em que cidade e mesmo em que bairro dessa cidade. Essa informação pode ser estratégica para os artistas, já que facilita a tomada de decisões de carreira, por exemplo no que diz respeito à escolha dos locais para atuações ao vivo.
A MÚSICA É UM ATIVO ESTRATÉGICO
Nestes três anos de investigação e experimentação percebeu-se que existiu algo transversal a todos os laboratórios vivos. Por um lado, a música tem um impacto muito significativo na forma como funcionários de espaços comerciais se relacionam com o seu local de trabalho e também na forma como os clientes adquirem serviços ou produtos.
“Um restaurante, por exemplo, não vende só a comida, não vende só o serviço. Vende também a música que está a utilizar naquele contexto. Constatámos que, se os espaços comerciais olharem para a música como um ativo estratégico, como fazendo parte daquilo que vendem, o impacto pode ser muito importante”, detalha Bruno Gaminha
Em termos económicos, a música tem, efetivamente, um impacto no valor, criado nesses espaços.
“Tal como a localização, o espaço e o serviço, a música deve ser pensada estrategicamente. Isso é importante para os próprios espaços, mas também para os criadores e titulares de direitos. Se a curadoria da música for pensada todos beneficiam. Beneficia o negócio porque consegue ter mais retorno, mas também os titulares de direitos, porque recebem mais direitos e veem que a sua música é devidamente enquadrada ”, conclui Bruno Gaminha.
